Árvore de Natal

Ninguém se espantaria se eu dissesse que a minha árvore de Natal preferida é toda decorada de biscoitos gingerbread, de uma confeitaria londrina. Mas não é. E digo ainda que de todas as árvores natalinas que eu vi até hoje pelas ruas, lojas, casas, prédios, etc, eu fico com a que nasceu diante de mim em nada mais do que vinte segundos. Caneta verde em punho firme e o pinheiro tomou forma instantânea na parede de azulejo branco da cozinha do meu trabalho. Quem desenhou foi minha chefe, que além de comandar a padaria, lidera a onda de empolgação de 35 funcionários às vésperas da festa de confraternização.

Tão logo a árvore surgiu, os enfeites foram pendurados com uma fita adesiva: folhas de caderno, guardanapos, papéis-toalha escritos (e alguns até desenhados) à mão. São cartinhas com sugestões de presente para o amigo secreto. Nas poucas linhas redigidas, desejos que cabem no limite de cinquenta reais, mas nas sutilezas das entrelinhas sonhos que números não medem.

Porque é impressionante como vinhos, chinelos, livros, chocolates, camisetas, plantas, entre outras coisas que foram pedidas, dizem tanto de cada um. Cada pedido (e, claro!, o que se fala paralelamente sobre ele) carrega em si a personalidade, as preferências e, em alguns casos, até a necessidade de quem pede. E, aí, quando um ciclo anual já vai se encerrando e imaginamos que nada mais pode se acrescentar, eis que surge um pouco mais dos colegas de todo dia.

Por isso, eu colocaria mais uma cartinha naquela árvore sobre o azulejo. Sem pedidos, mas com minha sincera gratidão pelas trocas diárias que nos fazem avançar não só como profissionais, mas também como pessoas. Porque, se ao longo de todo ano, como equipe, tivemos nossas diferenças e equívocos, também nos superamos com profissionalismo, perseverança e dedicação. Certamente, a festa de encerramento do ano da Padoca do Maní celebrará um grande período de doação e aprendizado de todos para todos, independente de cargos e conhecimentos técnicos. Porque quem vive, ensina e aprende.

Gingerbread Man

Gingerbread: biscoito de gengibre
Gingerbread: biscoito de gengibre

 

Massa: 5 colheres (sopa) de água – 210g de açúcar mascavo – 3 colheres (sopa) de melado – 3 colheres (sopa) de gengibre em pó – 1 colher (chá) de cravo em pó – 250g de cubos de manteiga gelada – 1 colher (chá) de bicarbonato de sódio – 560g de farinha de trigo

Glacê real: 1 xícara de açúcar de confeiteiro – Clara de 1 ovo – 10ml de suco de limão

Massa – Em uma panela funda, coloque a água, o açúcar mascavo, o melado, o gengibre e o cravo em pó. Leve ao fogo médio e mexa sem parar até levantar fervura. Retire do fogo e acrescente a manteiga aos poucos. Misture até que toda manteiga seja incorporada. Acrescente o bicarbonato e misture. Deixe a calda esfriar em temperatura ambiente. Depois que esfriar, passe a mistura para uma tigela grande. Peneire a farinha e, com cuidado, misture tudo até formar uma massa homogênea. Embrulhe em plástico filme e leve à geladeira por pelo menos 2 horas. Em uma superfície polvilhada com farinha, abra a massa até que fique com aproximadamente 5mm de espessura. Utilizando os cortadores, corte os biscoitos colocando-os na assadeira forrada com papel manteiga. Leve à geladeira novamente por 30 minutos. Pré-aqueça o forno a 200°C e asse por 8 a 10 minutos ou até que os biscoitos, ao serem pressionados levemente, retornem à sua forma original e as bordas estejam um pouco mais escuras. Deixe esfriar.

Glacê Real – Na batedeira, bata todos os ingredientes em velocidade baixa por aproximadamente 5 minutos, tomando cuidado para, durante o processo, raspar com uma espátula o açúcar que ficar a lateral da tigela. Coloque o glacê em um saco de confeitar, faca um furo pequeno na ponta e decore os biscoitos.

Empilhamento de peras

Antes mesmo que o sol clareie o dia, quem sobe a rua Vergueiro da altura do Hospital do Servidor Público rumo à estação de metrô já se depara com pelo menos uma dúzia de trabalhadores informais começando sua jornada. Os primeiros a madrugarem para montar as barracas que ficam na calçada são aqueles que servem o café da manhã. Tem oferta de tapioca, pão com manteiga ou mortadela, leite com café, bolo caseiro, chocolate quente, torta salgada e doce. O público são os outros trabalhadores da primeira hora.

Entre um e outro vendedor de comida já a todo vapor em suas atividades, as barracas de roupas, bolsas, uma só de meias, outra de capinhas de celulares vão sendo tiradas de carros e vans para tomarem forma na rua ainda escura. Há até uma tendinha de óculos de sol e de grau (obviamente, não precisa da receita do oftalmologista para comprar).

Já quase chegando na estação de metrô Vergueiro, a única barraca de frutas do grupo também vai sendo organizada. O homem de boné tira os produtos da Kombi, enquanto a mulher, de chinelos, organiza os frutos no balcão de madeira. Um transeunte habitual e atento notará que sempre, às 5h10, a moça estará empilhando peras. Todos os dias, como um ritual. Tão cronologicamente marcado que uma pessoa é capaz de perceber se está atrasada ou não para o trabalho só pela altura da pilha.

Não importa a época do ano, sempre há peras. De novembro a novembro. A sazonalidade dos alimentos ali funciona bem para morangos, ameixa, jabuticabas, goiabas, mas nunca para peras. Diariamente, elas são organizadas em formato de pirâmide: uma base triangular de umas 20 frutas sustenta as camadas acima, que vão ficando menores até restar apenas uma unidade no topo.

Trabalho pontual e metódico. Mas, se os olhos teimarem enxergarão um exercício de estética, geometria e harmonia de cores – peras ora verdes, ora rosadas, ora verdes e rosadas. As mangas desordenadamente espalhadas ao lado podem até passar despercebidas, no entanto, é impossível não reparar a beleza plástica daquele empilhamento de peras.

Arte efêmera que é, a ‘escultura’ logo é descontruída. A partir do seu ponto mais alto, a pirâmide se desfaz à medida que as frutas são consumidas por quem passa. Mas, no dia seguinte, a obra se renova no mesmo lugar e horário, pelas mesmas mãos minuciosas da artista de chinelos.Obra construída por quem tem a vocação de tornar belo o corriqueiro e ordinário. De fazer empolgante a rotina pesada.

Torta de pera com creme de amêndoas (ou Torta Bourdaloue)

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Torta Bourdaloue: receita clássica francesa

Massa: 100g de manteiga sem sal – 200g de farinha de trigo – 80g de açúcar – 1 ovo

Misture a manteiga e a farinha com as pontas dos dedos até obter uma farofa. Adicione o açúcar e o ovo, mexendo bem com a mão até a massa uniformizar. Embrulhe em filme PVC e leve à geladeira por pelo menos 30 minutos. Tire a massa da geladeira e abra com um rolo em uma superfície enfarinhada até atingir 0,5cm de espessura e largura suficiente para forrar uma forma de 20cm de diâmetro. Cuidadosamente, transfira a massa para a forma e retire o excesso de massa. Faça furinhos na base da massa com um garfo e leve a forma à geladeira por mais 30 minutos. Tire da geladeira, cubra a com papel alumínio e espalhe feijões. Leve ao forno pré-aquecido a 170°C e pré-asse a massa por 10 minutos. Retire do forno e remova os feijões e papel alumínio. Deixe esfriar.

Peras: 6 peras – 500 ml de água – 100g de açúcar – 2 canelas em pau – 3 cravos-da-índia -1/2 fava de baunilha – suco de 1 limão .

Descasque, fatie as peras e regue com suco de limão para não escurecer. Reserve. Numa panela, coloque os outros ingredientes e leve ao fogo alto até levantar fervura. Acrescente as peras e deixe cozinhar.

Creme de amêndoas – 200g de manteiga sem sal – 200g de açúcar – 200g de farinha de amêndoas – 4 ovos – 10 ml de rum.

Numa batedeira, bata a manteiga em temperatura ambiente até ficar com textura de pomada. Adicione o açúcar e bata bem. Acrescente os ovos uma a um e por ultimo, junte incorpore o rum.

Montagem: Despeje o creme de amêndoas sobre a massa pré-assada e fria. Escorra as peras e coloque as fatias por cima do creme. Leve ao forno pré-aquecido a 170°C até ficar dourada.

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Comemoração de aniversário

Me tornei jornalista por opção e cozinheira por encontro comigo mesma. As duas coisas por paixão medida e vivida, em cada caso, de formas e proporções diferentes. Entretanto, diante da compreensão de que eu poderia ser mais uma que outra, mas não deixar de ser as duas ao mesmo tempo, nasceu o Encontrei Babette.

Há um ano me dedico às páginas deste blog, na tentativa (um tanto pretenciosa!) de captar em textos e receitas o lugar da comida no cotidiano das pessoas. Durante este período, falamos sobre culinária, alimentação, política, economia, artes, religião, comportamento. Escrevemos sobre esperança e Baba au rhum, amores e risotos, sobre rebeldia e crème brûlée. Trabalho e pastéis, festas e bolo Souza Leão. Sobre afetos e galinhadas, desafetos e bobó de camarão, sobre vida e picolés. Acertamos tentando acertar. Erramos na tentativa de sempre acertar. Foram os primeiros passos de uma caminhada que, honestamente, espero que seja duradoura.

Das leituras realizadas nesses 365 dias, buscando fontes e inspirações, reservei para hoje “A última crônica”, de Fernando Sabino. Uma narração de aniversário, que celebra, sobretudo, o amor, a simplicidade e a verdade:

“A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: ‘assim eu quereria o meu último poema’. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: ‘Parabéns pra você, parabéns pra você…’ Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso”.

Cupcake de laranja com ganache amargo

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Cupcake: 75g de manteiga sem sal – 120g de açúcar – 1 colher (de sopa) de raspas de laranja – 2 ovos – ½ colher (chá) de extrato de baunilha – 1 colher (de sopa) de raspas de laranja – 180g de farinha de trigo – 1 pitada de sal – 15g de fermento em pó – 120ml de suco de laranja – 80ml de leite

Pré-aquecer o forno a 180°C.

Na batedeira, bater a manteiga com o açúcar até obter um creme pálido. Adicionar os ovos, um de cada vez, batendo bem. Acrescentar o extrato de baunilha e as raspas de laranja, batendo para incorporar tudo. Peneirar a farinha de trigo, o sal e o fermento. Alternar a adição dos ingredientes secos com leite e suco. Dividir a massa entre forminhas de cupcake, preenchendo 2/3 da capacidade década uma. Levar para assar e retire do forno quando ao inserir um palito de dente no centro do bolinho, o palito saia limpo. Deixar esfriar.

Ganache: 400g de chocolate amargo – 135g de creme de leite fresco

Colocar o creme de leite numa panela e leve ao fogo médio. Quando ferver acrescentar o chocolate (cortado finamente) e misturar até o chocolate derreter por completo e incorporar ao creme de leite. Colocar numa tigela de vidro, cobrir com um plástico filme e deixar descansar por pelo menos quatro horas para enrijecer. Cobrir os cupcakes e servir.

Cupcake de laranja com ganache amrgo
Cupcake de laranja com ganache amrgo

Braço de merendeira

Posávamos para uma foto em grupo, quando uma das amigas disse firme para quem fotografava: “cuidado para eu não aparecer com braço de merendeira”. Mais que depressa, uma outra reforçou: “ah, é! Por favor!”. A partir daí, os segundos do clique viraram minutos, até que o display da câmera digital apresentasse uma imagem digna de ser postada na rede, ou seja, moças sem braços de merendeiras. “Braço de merendeira?”, era a primeira vez que eu escutava a expressão e minha pergunta teve resposta sussurrada entre os dentes: “é um braço gordo”.

Olhei pra mim mesma e pensei (só pensei) que eu não poderia participar daquela fotografia. Depois, terminados os minutos de constrangimento diante da câmera, tive vontade de entrar num moletom bem largo para esconder meus braços roliços. Ok, minha reação foi um equívoco, sucedendo uma série deles dentro de uma mesma cena. Incluindo a insistente preocupação com os padrões midiáticos e a necessidade de parecermos sempre tão engessadamente belos.

Mas, eu diria que a vítima do primeiro equívoco dessa história foi a merendeira. A expressão ‘braço de merendeira’, um tanto pejorativa, se refere à quem faz merendas nas escolas e dá conta de uma severa estereotipia da profissional: o braço grande, gordo, roliço – leia-se feio, o que não está de acordo. Característica, ‘certamente’, obtida pelo movimento repetitivo e duradouro de mexer a colher nas panelas. Entretanto, nas escolas em que eu estudei tinha merendeira de todo tipo, toda cor, altura, idade, e grossura de braço.

Me lembro de uma em particular, a dona Imaculada, de quem me recordo mais das sardas no rosto do que da espessura dos braços. Mulher de uns 40 anos, brava. Sempre vestia blusas estampadas e quando era dia de arroz doce, avisava: “hoje não pode repetir”.

Junto das outras quatro ou cinco merendeiras, ela chegava bem cedo, de modo que dez minutos antes das sete da manhã (quando o sinal tocava para o início da primeira aula) já era servido leite quente e bolachas a quem chegasse. A essa hora, na bancada, já estavam separados os legumes, carnes ou qualquer outro ingrediente que seria utilizado no cardápio do recreio. Alunos em sala, os caldeirões já iam para o fogo.

Às nove e trinta, a fila se formava na porta da cantina e tomava o pátio externo. Eram centenas de alunos. A principal refeição da manhã era servida pelas mesmas mãos de quem tinha preparado a comida. Nas panelas, os caldos ainda fumegavam. Dona Imaculada sempre nos prendia pelos olhos, enquanto enchia o prato de alumínio, dizendo: “só pegue o que vai comer. Não é pra desperdiçar”, o tom de voz misturava autoridade e carinho. Em meia hora, alunos alimentados de volta às salas, as merendeiras começavam a lavagem da louça suja.

Ao meio dia e meia, na saída para a casa, qualquer olhar atravessado para a cozinha flagrava ainda o término da limpeza do chão e paredes. Num canto, dona Imaculada ao lado de outra companheira mais velha, segurava nas mãos uma caneta e um bloco de anotações, já se preparando para a jornada do dia seguinte.

É, me parece bastante injusto que ‘braços de merendeira’ numa foto se traduza como um demérito. Ao contrário, me inspira trabalho e dignidade.

Arroz doce com caramelo e flor de sal

Arroz doce
Arroz doce

Calda de caramelo: 2 xícaras de açúcar – ½ xícara de água – 200g de creme de leite

Em uma panela, dissolva o açúcar na água. Leve ao fogo médio e deixe cozinhar até adquirir a cor de caramelo claro. Reduza o fogo, e adicione o creme de leite aos poucos. Deixe cozinhar por mais 2 minutos. Desligue o fogo e reserve.

Arroz doce: 100g de arroz arbóreo – 800ml de leite – 80g de açúcar – 3 cravos da índia – 2 paus de canela

Lave o arroz e escorra. Cozinhe o arroz com o leite, o açúcar, o cravo e a canela em fogo alto, mexendo sem parar. Quando começar a ferver, baixe o fogo e deixe cozinhar por 20 minutos, mexendo de vez em quando. Coloque em um recipiente de sua preferência e sirva com a calda de caramelo e polvilhe flor de sal.

O truque do leite condensado

Há uns dez anos atrás, eu dizia que o mundo poderia acabar em leite condensado. Afinal, com uma latinha na mão, eu me sentia a rainha da cozinha. Fazia brigadeiro ou cocada, bolo, pudim, regava a pipoca e era tudo um sucesso. Até salada de fruta virava sobremesa de domingo se tivesse o leite da moça misturado. Mas, eu estava caindo numa cilada e não sabia. Pois, ao incluir o leite condensado na maioria absoluta das minhas receitas, na verdade, eu apostava em um produto industrializado em detrimento de ingredientes mais naturais ou menos processados; excessivamente açucarado; e que, por sua densidade, ainda, anula etapas de preparos tradicionais (alguns podem chamar isso de praticidade, eu considero uma perda para a cultura culinária) .

Há umas três semanas, a premiada Marilia Zylbersztajn, da confeitaria de mesmo nome, em entrevista ao programa Bons de Garfo, se referiu ao leite condensado como um ingrediente truque da confeitaria. Para ela, o sabor muito doce, muitas vezes, acaba mascarando as bases mal feitas de uma sobremesa. Ou a inabilidade dos chefs de cozinha em lidar com essa parte da refeição. Marilia defende que os doces feitos passo a passo ficam mais autênticos, delicados e saborosos.

Carlos Alberto Dória já se rebelava contra o leite condensado bem antes, apontando-o como uma modernização perversa e resistência da culinária tradicional/artesanal. “Sempre acho problemático quando uma coisa ‘parece’ outra da qual vira a solução simplificada. Além disso, o açúcar! Por que o leite deve nos impor, combinado, uma determinada dose de açúcar?”, disse ele. E completa, dando a receita: “Um litro de leite, 200 grs de açúcar, 8 gemas, 4 ovos inteiros – eis a receita clássica de Escoffier para o creme renversée. O pudim de Leite Moça da Nestlé é o seu substituto: 1 lata do leite condensado, duas medidas equivalentes de leite e 3 ovos. É a mesma coisa? Não, não é” (Leia Leite condensado condensa o que?).

Desde que decidi me dedicar profissionalmente à culinária, foi preciso redescobrir o mundo das sobremesas sem leite condensado. E eu acho que saí ganhando muito. Mas, continuo tendo o ‘defeito’ da flexibilidade, então por mais que minha percepção e paladar tenham mudado, ainda sou louca por um brigadeirinho. Então, não se surpreenda se me encontrar no supermercado comprando uma lata de Leite Moça. Ainda que, ultimamente eu tenha optado por um leite condensado caseiro, receita da chef confeiteira Raíza Costa, do canal Dulce Delight. Leite e açúcar no fogo, e a paciência dos apaixonados por cozinhar. Aí completo o processo com manteiga e cacau em pó. Sem truques por uma cozinha mais verdadeira.

Crème renversèe au caramel (ou pudim de leite)

Sobremesa tradicional de sabor e textura delicados
Sobremesa tradicional de sabor e textura delicados

1 litro de leite – 8 gemas – 4 ovos inteiros – 200 g de açúcar – 150g de açúcar para o caramelo

Coloque os 150g de açúcar numa panela e leve ao fogo baixo, movimentando a panela sempre para que o açúcar se misture, até obter um caramelo claro. Coloque sobre o fundo de ramequins (ou numa forma de pudim, se preferir) e reserve.

Aqueça o leite. Em uma tigela separada, misture as gemas, os ovos e o açúcar. Junte o leite aquecido à mistura, mexendo sem parar. Distribua nos ramequins. Cubra com papel alumínio e cozinhe em banho-maria no forno a 180°C por, aproximadamente, uma hora e meia. Para verificar se o creme está assado, espete um garfo no centro. Se sair limpo, está pronto.

Tire os ramequins de dentro do forma com água, deixe esfriar e leve à geladeira por pelo menos 3 horas. Desenforme e sirva.

Brigadeiro

Doce brasileiro
Doce brasileiro

1 litro de leite – 300g de açúcar – 1 colher de sopa de manteiga – 2 colheres de sopa de cacau em pó – confeito de chocolate ao leite para decorar

Leite condensado (receita da Raíza Costa) – Coloque os ingredientes em uma panela em fogo alto e mexa sem parar até engrossar. Para testar o ponto, coloque a mistura em um pires gelado. Se, ao virar, o liquido escorrer devagar, está no ponto. Desligue o fogo. Bata a mistura numa batedeira, mixer ou liquidificador até esfriar.

Numa panela, coloque o leite condensado preparado, a manteiga e o cacau em pó. Leve ao fogo brando e mexa sem parar. Quando estiver desgrudando do fundo da panela. Transfira o brigadeiro para um prato untado e deixe esfriar. Depois de frio, unte as mãos e faça as bolinhas, passe no confeito de chocolate. Coloque sobre forminhas e sirva.

Aquele em que eu era Monica Geller

Não que Monica Geller, de Friends, fosse especialista nisso (aliás, o panorama indica que não), mas em dez temporadas de seriado, numericamente ela serviu mais lasanhas do que perus de Thanksgiving Day. Só em um episódio, a cozinheira teve que distribuir doze delas – de carne, que, equivocadamente, havia preparado para sua tia vegetariana. Teve também a primeira lasanha do programa (segundo episódio), cuja montagem foi confiada a amiga Rachel, que deixou o anel de noivado no recheio.

A contra gosto, também serviu lasanha congelada numa festa oferecida por sua mãe. Resultado de outro equívoco, o de usar unhas postiças azuis enquanto cozinhava. Uma delas ficou na quiche que preparava para o jantar. Entretanto, na mesa dos convidados, a massa que havia sido estocada no freezer pela mãe, já esperando qualquer erro da filha, perdeu espaço para o cozido, improvisado para substituir os planos iniciais de Monica.

Tantos incidentes envolvendo lasanha faz até parecer que Monica era uma profissional de insucesso. Não se trata disso. A carreira de chef de cozinha da personagem ascendeu na medida da própria série, uma das mais assistidas no mundo. Mas a comédia tem dessas coisas, nos roubar o riso pelo ridículo. Na situação do outro, prazerosamente nos identificamos com o que nos faz patéticos a despeito de nossas habilidades. E, isso pode ser bom, se nos olhamos mais humanos e nos aceitamos imperfeitos.

Em alguns casos, a identificação é coletiva. Aí a coisa fica mais séria. Várias vezes fui comparada à Monica Geller, não apenas por essa minha paixão pela culinária. Mas, também, quando ela se desesperou com uma almofada posicionada do lado “errado” do sofá; ou quando eu organizei os chocolates da páscoa para serem comidos por ordem de data de validade. Quando Monica empenhou todos os seus passos de dança ao lado do irmão Ross para uma apresentação de fim de ano na TV; ou todas as vezes que lutei contra uns quilos a mais na balança quando um dos meus maiores prazeres na vida era fazer doces.

Assim, carinhosamente fui chamada pelos meus amigos de neurótica, obsessiva-compulsiva e competitiva. Mas também fui reconhecida como boa anfitriã, que recebe com alegria e zelo à mesa. Nas primeiras vezes, pareceu-me assustador, mas, depois, analisando bem, me dei por satisfeita. E, resguardados todos os limites que me fazem um ser real e a Mônica um personagem fictício, vejo isso com minhas melhores risadas.

Lasanha à bolonhesa com molho bechamel

Clássica lasanha à bolonhesa com molho bechamel
Clássica lasanha à bolonhesa com molho bechamel

Massa: 250g de massa de lasanha da sua preferência

ou para quem quiser fazer a própria massa: 200g de farinha de trigo – 2 ovos – 1/2 colher (chá) de azeite

Sobre uma mesa, espalhe a farinha de trigo. Faça um buraco no meio, adicione os ovos e o azeite. Misture, incorporando a farinha aos ingredientes líquidos, até obter uma massa homogênea. Abra a massa com um cilindro e corte retângulos. Pré-cozinhe as folhas de lasanha por três minutos em água fervendo com sal.

Molho bolonhesa: 500g de patinho moído – 100ml de azeite – ½ cebola – 2 cenouras médias – 2/3 de salsão – 1 xícara de vinho branco – 1 lata de tomate pelado – 1 litro de leite – sal – pimenta – noz moscada

Coloque o azeite em uma panela em fogo médio. Refogue a cebola picada em cubos pequenos até ficar transparente. Junte a cenoura e o salsão picados em cubos pequenos e deixe refogar por mais dois minutos sem parar de mexer. Junte a carne moída e misture bem para que ela fique soltinha. Adicione somente o suco da lata de tomates pelados e deixe caramelizar. Refresque com o vinho branco. Deixe a mistura secar e junte os tomates pelados picadinhos. Em fogo baixo, adicione um pouco de leite. Deixe secar e vá repetindo a operação, adicionando o leite aos poucos até terminar. Cozinhar por aproximadamente duas horas

Molho bechamel: 100g de manteiga – 100g de farinha de trigo – 1 litro de leite – 50g de queijo gruyère – 50g de queijo parmesão – sal – pimenta – noz moscada

Em uma panela em fogo baixo, derreta a manteiga e acrescente a farinha, misturando, para fazer um roux. Retire a panela do fogo e vá acrescentando o leite , batendo com um fouet sem parar. Volte com a panela para o fogo e aumente para o fogo médio. Continue mexendo sem parar até ferver. Com o fogo baixo, acrescente os queijos gruyère e parmesão ralado. Tempere com sal, pimenta e noz moscada.

Montagem: Numa travessa refratária, faça uma camada de molho branco e por cima, uma de molho à bolonhesa. Sobre os molhos, faça uma camada de massa. Repita a ordem das camadas até completar a travessa, terminando com o molho branco. Polvilhe queijo parmesão ralado e leve ao forno até que o queijo fique gratinado, dourado.

O peru pelo porco

Ninguém duvida de que o prato mais tradicional do Natal é o Peru. De preferência bem grandão, que é pra servir a família com fartura. E com farofa acompanhando, fica melhor.

Mas o clássico vem, cada vez mais, dividindo espaço com as carnes suínas. Confesso que, como mineira legítima, até prefiro a variação. Ultimamente, muitas receitas são publicadas a reviria como opções para as festas de fim de ano.

E em tempos de crise econômica, pode ser uma ótima alternativa, também, para o bolso. A carne de porco é extremamente saborosa e bem mais barata que a referida ave.

Para quem gosta de carne mais sequinha e menos gordurosa, dá pra investir num lombo estufado e servir com batatas rústicas. Se puder ter aquela gordurinha do sabor irresistível, vale a pena um pernil assado com chutney de amora (sugiro até uma farofinha de milho com castanhas para acompanhar) . Agora, se tiver disposição, leve à mesa uma leitora inteirinha à pururca. Só não esqueça da maçã na boca.

Pernil assado com chutney de amora

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Pernil suíno com chutney de amora

1kg de pernil suíno – 2 dentes de alho – 1 cebola – 1 ramo de alecrim – 1 xícara de vinho tinto – 1 colher (sopa) de sal – pimenta do reino

Misture o alho e a cebola picadinhos, o alecrim macerado, o vinho, o sal e a pimenta. Faça furinhos no pernil, coloque sobre um papel alumínio e tempere com a mistura. Embrulhe o pernil com o papel e deixe na geladeira marinando por 12 horas. Leve para assar em forno pré-aquecido a 160C (certifique-se que o alumínio está bem vedado). Asse por 1h30. Retire o papel alumínio, jogue mais um pouquinho de vinho e deixe dourar. Depois de retirar do forno, espere pelo menos 10 minutos para cortar. Sirva com chutney de amora.

Chutney de amora: 400g de amora – 1 colher (sopa) de açúcar mascavo – 2 colheres (sopa) de vinagre de vinho tinto – 1 colher (sopa) de azeite – 1 cebola – 1 pitada de sal

Refogue a cebola picada no azeite. Junte o vinagre de vinho, a amora, o açúcar mascavo e o sal. Deixe ferver em fogo médio até atingir a consistência de geleia.